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  • Estudo investiga a ação da taurina no sistema nervoso

    Pesquisa feita em modelo animal aponta que aminoácido não essencial melhora a sinalização dos hormônios leptina e insulina

    A taurina, aminoácido não essencial sintetizado naturalmente no fígado e no cérebro a partir dos aminoácidos metionina e cisteína, tem a propriedade de agir no sistema nervoso central de modo a melhorar a sinalização da leptina e da insulina, hormônios que desempenham papel importante na regulação da ingestão alimentar e na transformação da glicose em energia, respectivamente. A constatação é do biólogo Rafael Ludemann Camargo, que defendeu junto ao Instituto de Biologia (IB) da Unicamp a tese de doutorado intitulada “Suplementação de Taurina em animais desnutridos obesos: Análise dos mecanismos moleculares da ação hipotalâmica da insulina e leptina e repercussões no metabolismo energético”. O orientador do trabalho foi o professor Everardo Magalhães Carneiro.

    De acordo com o autor da tese, a taurina não é incorporada nas proteínas do nosso organismo e pode ser encontrada naturalmente nas carnes e peixes. Rafael Camargo informa que existem poucas pesquisas sobre a ação do aminoácido no sistema nervoso central, embora já haja uma boa compreensão de como ela atua no sistema periférico. Uma das raras investigações a respeito no Brasil foi desenvolvida pelo grupo de pesquisa do professor Lício Velloso, da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp. Rafael Camargo explica que, nessa abordagem específica, os pesquisadores injetaram o aminoácido diretamente no hipotálamo de ratos, para analisar a ação da substância nessa região do cérebro. O que o grupo da FCM constatou foi que a taurina potencializou a ação da insulina no sistema nervoso central.

    No caso da investigação realizada por Rafael Camargo, a abordagem foi diferente. O pesquisador suplementou os camundongos com o aminoácido na concentração de 5% na água de beber, para verificar se ele poderia agir sobre o sistema nervoso central também por essa via. Dito de modo simplificado, o biólogo estabeleceu um grupo controle, que recebeu uma dieta convencional. Este serviu de referência para outros dois grupos, um alimentado com uma dieta hiperlipídica e outro que recebeu a mesma dieta hiperlipídica associada com a taurina.

    O principal objetivo de Rafael Camargo era analisar se o aminoácido tinha capacidade para agir no sistema nervoso central dos animais obesos e, em caso positivo, que benefícios poderia proporcionar. “O que nós pudemos verificar foi que a taurina agiu no sistema nervoso central dos camundongos, melhorando a sinalização tanto da leptina quanto da insulina, que é prejudicada em animais obesos induzidos pela dieta hiperlipídica. Na avaliação que fizemos nos animais, constatamos que o aminoácido favoreceu a perda de peso [13%] e a redução dos níveis de colesterol [21%] e da glicemia [16%] dos indivíduos obesos”, afirma o autor da tese.

    O trabalho também demonstrou que a taurina traz benefícios para animais obesos submetidos a uma desnutrição proteica prévia. “Todavia, os efeitos benéficos foram menos eficazes nesse modelo. Trabalhos prévios do nosso grupo de pesquisa demonstram também uma diminuição nos níveis de insulina e leptina em animais suplementados com este aminoácido, quando comparado a animais obesos”, complementa o autor da tese.

    O pesquisador lembra que a leptina desempenha papel importante na regulação da ingestão alimentar. A presença desse hormônio é um indicativo do nível de gordura no organismo. Ele é responsável por enviar sinais de saciedade ao cérebro. Já a insulina, além do seu papel anorexigênico no sistema nervoso central, é responsável por promover a entrada da glicose nas células, onde será transformada em energia. São, portanto, hormônios que estão relacionados direta ou indiretamente com a obesidade. A despeito da constatação feita pela sua pesquisa, Rafael Camargo faz questão de destacar que ainda é muito cedo para se pensar no desenvolvimento de uma droga à base de taurina para ser utilizada no tratamento da obesidade.

    Antes que isso possa ocorrer, novos estudos terão que ser realizados, para que os pesquisadores compreendam um pouco mais sobre o aminoácido. “Nós sabemos que a taurina age no hipotálamo, mas ainda não sabemos em detalhes como isso se dá. É fundamental compreendermos qual a via utilizada pelo aminoácido para provocar a sensibilidade hipotalâmica. Também não sabemos qual a dose mais indicada do aminoácido, para que ele não se torne tóxico. Outra pergunta que precisa ser respondida é se o uso da taurina pode eventualmente causar algum efeito deletério em algum órgão. Somente depois de esclarecermos esses pontos é que poderemos pensar em realizar estudos clínicos com vistas, no futuro, ao desenvolvimento de alguma droga comercial”, reforça o biólogo.

    Se depender do esforço da ciência, esse objetivo tem boa chance de ser alcançado. Rafael Camargo observa que grupos espalhados pelo mundo inteiro têm se dedicado ao estudo da taurina, com diferentes abordagens. O interesse pelo aminoácido tem crescido tanto, que os pesquisadores criaram um congresso internacional para tratar especificamente do assunto. “Veja, estamos falando de um evento sobre a taurina e não sobre a obesidade, que é um tema bem mais amplo”, observa.

    Os cientistas que atuam nessa área, prossegue o autor da tese de doutorado, frequentemente trocam informações e conduzem pesquisas colaborativas. Entre os grupos mais destacados está o coordenado pelo professor Everardo Magalhães Carneiro, que coordena o Laboratório do Pâncreas Endócrino e Metabolismo do IB. “Temos vários pesquisadores envolvidos com estudos sobre a taurina. Uma das integrantes da equipe está investigando atualmente a ação do aminoácido em fêmeas de camundongos menopausadas. É sabido que no período da menopausa as fêmeas sofrem mudanças hormonais e tendem a engordar. O estudo quer saber se a taurina pode contribuir para controlar esse ganho de peso nessa fase”, revela Rafael Camargo, que contou com bolsa de estudo concedida pela Fundação de Aparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

    Epidemia global

    O grande interesse da ciência pela taurina pode ser explicado, entre outros fatores, pelo rápido avanço da obesidade no mundo, inclusive em países em desenvolvimento como o Brasil. De acordo com dados da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), o país soma atualmente 18 milhões de pessoas obesas. Considerando o total de indivíduos acima do peso, o montante chega a 70 milhões, o dobro de há três décadas. A obesidade é fator de risco para uma série de doenças. O obeso tem mais propensão a desenvolver problemas como hipertensão, doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2, entre outras.

    No mundo, conforme números da Organização Mundial da Saúde (OMS), há 2,1 bilhões de pessoas obesas ou com sobrepeso, o que representa quase 30% da população global. A epidemia, como classifica a OMS, atinge também as crianças. Atualmente, cerca de 40 milhões delas são obesas. Em 2025 serão 75 milhões, se a atual tendência for mantida. Não por acaso, a entidade lançou uma campanha em nível mundial para tentar conter o avanço da obesidade, cujo foco principal é a prevenção.

    Publicação

    Tese: “Suplementação de Taurina em animais desnutridos obesos: Análise dos mecanismos moleculares da ação hipotalâmica da insulina e leptina e repercussões no metabolismo energético”

    Autor: Rafael Ludemann Camargo

    Orientador: Everardo Magalhães Carneiro

    Unidade: Instituto de Biologia (IB)

    Financiamento: Fapesp

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